lunedì 6 luglio 2009

A mentira

Quando se fala em "enxergar o todo", em pensar "holísticamente" ou ainda em políticas ou processos de longo prazo e sustentáveis, não há fenômeno mais curioso do que a mentira.

Mentir por si só é algo negativo, feio e que não se deve fazer; isso aprendemos desde pequenos. É uma questão de princípio, de moral. Mas esqueçamos isso por um momento, e enxerguemos a mentira do ponto de vista pragmático. Inventar algo ou modificar uma verdade pode freqüentemente parecer uma boa saída em diversas situações, seja na esfera pessoal, social ou pública em geral. Dizer pra mulher que você fez hora extra pra não ter que explicar que estava só tomando uma cerveja com a turma (e não rodeado de mulheres em um bordel) pode evitar uma breve discussão. Dizer pro chefe que acordou com um resfriado violento ou que um acidente no trânsito causou o seu atraso pode te livrar de uma repreensão. Afirmar pra população que você reduziu o déficit público quando na verdade você só maquiou uns números e mexeu em algumas burocracias pra fazer isso parecer verdade pode ser uma forma de garantir votos pro seu projeto político muito bem intencionado.


Mas quais as conseqüências?

Primeiro, a mais óbvia: uma mentira isolada não é difícil de vender, mas tornar isso um hábito faz com que ser descoberto seja questão de tempo. Dado tempo suficiente, qualquer mentira rotineira se expressa de uma forma ou de outra. Afinal, ninguém fica resfriado todo mês. E ser pêgo como mentiroso é bastante constrangedor; uma mentira simples e inocente pode terminar um relacionamento, um emprego ou uma carreira.

Mas a segunda conseqüência é que me fascina. Não sei bem quanto a outros tempos, mas da nossa sociedade atual mentir faz parte, é perdoável, compreensível, e, às vezes, esperado de certas pessoas. É raro encontrar quem não o faça, por qualquer razão que seja, em circunstâncias diversas. Pequenas ou grandes, estruturais ou sem importância, contar uma mentira é uma alternativa freqüentemente aceitável.

Exagero?

Um cidadão nasce e, tão logo aprenda a falar, escuta que o Papai Noel vai lhe trazer presentes no fim do ano, desde que ele se comporte. O objetivo é fazê-lo se comportar e, no final, a criança tem um presente e o pai, sossego. Todo mundo sai ganhando. O bom velhinho vai entrar vestido de vermelho com um saco cheio de presentes por uma chaminé que nem existe. Pouco mais adiante, é o Coelhinho da Páscoa que vai trazer uma quantidade de ovos de chocolate. Coelhinho não põe ovo, muito menos de chocolate, mas criança não liga pra isso. São histórias interessantes, boas pra estimular a imaginação da criança... mas não são contadas como histórias. São contadas como verdade, muitas vezes com detalhes e complementos que visam aprimorar a veracidade do conto que, com o passar dos anos, torna-se cada vez mais absurdo pra criança. Quando não há mais jeito, admite-se a verdade, deixando-se claro que sim, era mentira, mas uma mentira bem intencionada. Aprende-se que há situações em que a mentira é justificável e até desejável. O jovem segue lidando com a mentira das mais diversas formas... em casa, no colégio, com os amigos... e isso não pára nunca. Veio a público que a afirmação de que o Iraque tinha armas de destruição em massa foi uma mentira planejada, mas George W. Bush conseguiu se reeleger, em parte, em cima do argumento de que foi uma mentira necessária: afinal, Saddam era um cara mau. Se não me engano, foi Okun que disse que o homem público não deve nunca mentir quanto aos seus atos: se ele não mente e uma ação não dá certo, ele tem que explicar por quê não deu certo. Se ele mente e a coisa não funciona, ele tem que explicar por quê não deu certo e por quê ele mentiu.

Aí aparece a conseqüência que me interessa: em primeiro lugar, a mentira freqüente faz com que tenhamos uma visão turvada das coisas. Temos que desenvolver critérios aproximativos pra supor o que é verdade, porque que um sujeito afirme algo pode ou não significar que aquilo é fato. Então, as pessoas adaptam suas expectativas a essa visão turvada da realidade. Com freqüência se diz o que se supõe que o outro quer escutar só pra agradar, mesmo que não seja bem verdade. Um passa a esperar que o outro diga aquilo sempre, e, a partir daí, ser espontâneo e honesto é quase sinônimo de ser grosseiro. De repente um sujeito não tem um único relacionamento honesto e espontâneo, em que ele possa agir sossegadamente sem antes ter que avaliar as conseqüências disso pra ponderar se vale a pena ou não inventar alguma coisa.

Mesmo do ponto de vista pragmático, então, a mentira é ruim. Essa visão turva torna as relações e as administrações menos eficientes, mais dispendiosas; gera aberrações em que o que acontece não é o que deveria acontecer, quem faz não é quem deveria fazer. As relações entre as pessoas não são as que deveriam ser, porque há uma espécie de barreira que não permite que as personalidades se expressem espontaneamente, e ninguém é o que parece.

Em nome de um benefício imediato, abre-se mão, conscientemente ou não, de uma sociedade mais eficiente, capaz e segura, seja do ponto de vista pessoal ou social.

E o mais interessante é que, pelo menos pelo que me parece, os relacionamentos em que a sinceridade deveria ser mais importante, pela intensidade deles e por suas conseqüências, são em geral os menos honestos: entre casais e na política.

martedì 5 maggio 2009

O que é "nós"?

Que somos parte de um grupo, não há indivíduo que discorde e que não aja como tal. Isso começou antes do surgimento do homem, ainda com formas de vida não - ou menos - racionais. A história de respeitar e ajudar o "próximo" é a base da vida em sociedade. É daí que surgiram as civilizações modernas. É isso que nos permite complexificar nossa cultura, técnica, relações, e o que faz a humanidade avançar. Não creio que alguém discorde.

O que me chama a atenção, no entanto, é o quê que as pessoas definem como grupo. Qual a unidade coletiva à qual uma pessoa pertence? Uma família? Um "bando"? Uma vizinhança, um bairro, uma cidade...? Claro que essas opções não se excluem. Mas, seguindo um pouco nessa linha de raciocínio, chego a uma série de fenômenos extremamente interessantes provenientes de percepções distorcidas dessa coletividade. Há quem defina essa "unidade coletiva", insconscientemente, como um grupo étnico ou religioso, uma nação, e tantos outros critérios freqüentemente perigosos. Todo mundo quer o próprio bem; isso precede nossa lógica. Todo mundo busca o que é positivo - definição relativa, eu sei. Como vivemos em sociedade, queremos o bem pra nós e pra quem nos cerca. Nesse momento, as definições que fiz mais cedo começam a entrar em conflito. Se um grupo é suficientemente forte e definido, corre-se o risco de que seus membros se considerem membro dele antes de tudo, e que o "positivo" se torne negativo. Judeu, árabe, branco, muçulmano, tutsi, hutu, rico, maçon, atleticano, petista, sem-terra, gaúcho. A partir daí, quantidade de "fenômenos extremamente interessantes" que se observa é inumerável, e vão do preconceito ao genocídio, passando por diversas formas de segregação e toda exploração comercial que se pode fazer delas - roupas de marca, comida kosher, adesivos no carro...

Isso tudo leva a outra observação que se pode fazer sobre a vida em sociedade: a notável perda de senso de causa e conseqüência na medida em que as relações se complexificam. As relações na natureza são extremamente simples: um animal mata outro porque sua carne tem bom sabor, e assim se vive. Toda a organização da natureza se baseia em pequenos fatos incontestáveis que foram, pouco a pouco, se sobrepondo e se relacionando. A evolução natural selecionou atos "positivos" para o convívio sustentável, eliminando os demais atos e indivíduos. Mas a nossa civilização mudou, em poucos milênios, as próprias condições de existência do planeta, tamanho o "avanço" que fizemos até aqui - a ponto de um indivíduo não ter plena consciência das conseqüências de seus mais simples atos.

Me parece estar aí a origem da velha afirmação de que a humanidade é coletivamente burra. Um sujeito acende um baseado e é assaltado com uma arma do tráfico. Tranca o cruzamento, indignado com a lentidão do trânsito. Gasta 900 reais numa camisa que custou 10, e não agüenta essa quantidade de pedinte na rua. Vota no candidato "jovem e dinâmico", diz que político não presta, paga uma fortuna em impostos, sonega outra fortuna, e acha uma beleza a nova obra que custou o dobro do previsto...

Dá pra continuar a noite toda nisso.

sabato 25 aprile 2009

Por que um blog?

Vi uma vez um documentário sobre os maiores seres vivos do planeta. Era interessante, no estilo top ten. Quando o narrador anunciou o 2º maior, fiquei surpreso: a baleia-azul. Qual seria o maior, então?

Curiosamente, elegeram como maior ser vivo do mundo uma colônia de formigas da Amazônia, que cobria centenas de metros quadrados. Vivendo em sociedade, com indivíduos especializados, nenhuma formiga ali sobrevive sozinha. São todas parte de um organismo, argumentava o documentário.

Me ocorreu que com a humanidade, tal como a conhecemos, não é diferente. Indivíduos poderiam até sobreviver isolados na selva (eu certamente não!), mas, no processo de garantir a própria sobrevivência, perderiam quase tudo do que temos como peculiar à humanidade. O que nos define como humanos depende da nossa vida em sociedade.

Nesse sentido, ainda somos pouco mais do que um recém-nascido. Me parece fácil constatar a velha afirmação de que, por mais inteligentes que sejamos, somos burros coletivamente (constata-se isso com facilidade no trânsito).

Paralelamente, me parece que a inteligência individual não depende da qualidade das sinapses no cérebro, mas da quantidade delas. Uma sinapse isolada não significa, não deduz, não entende nada. Mas o intenso intercâmbio delas é capaz de gerar raciocínios e idéias complexas, que movimentam pessoas, que movimentam grupos, que movimentam a nossa vida em sociedade.

Um blog, então, porque é uma forma fácil de criar uma sinapse. Não pretendo nada além de publicar, pra quem possa se interessar, breves considerações sobre o que quer que seja. Que essas considerações gerem qualquer tipo de reação em quem as leia - que sejam sinapses, na escala social - satisfaz plenamente às minhas pretensões. Minha pessoa, minhas vontades e particularidades não importam, a menos que pra embasar alguma dessas considerações.

Enquanto isso aqui cumprir esse papel, sigo postando.