martedì 5 maggio 2009

O que é "nós"?

Que somos parte de um grupo, não há indivíduo que discorde e que não aja como tal. Isso começou antes do surgimento do homem, ainda com formas de vida não - ou menos - racionais. A história de respeitar e ajudar o "próximo" é a base da vida em sociedade. É daí que surgiram as civilizações modernas. É isso que nos permite complexificar nossa cultura, técnica, relações, e o que faz a humanidade avançar. Não creio que alguém discorde.

O que me chama a atenção, no entanto, é o quê que as pessoas definem como grupo. Qual a unidade coletiva à qual uma pessoa pertence? Uma família? Um "bando"? Uma vizinhança, um bairro, uma cidade...? Claro que essas opções não se excluem. Mas, seguindo um pouco nessa linha de raciocínio, chego a uma série de fenômenos extremamente interessantes provenientes de percepções distorcidas dessa coletividade. Há quem defina essa "unidade coletiva", insconscientemente, como um grupo étnico ou religioso, uma nação, e tantos outros critérios freqüentemente perigosos. Todo mundo quer o próprio bem; isso precede nossa lógica. Todo mundo busca o que é positivo - definição relativa, eu sei. Como vivemos em sociedade, queremos o bem pra nós e pra quem nos cerca. Nesse momento, as definições que fiz mais cedo começam a entrar em conflito. Se um grupo é suficientemente forte e definido, corre-se o risco de que seus membros se considerem membro dele antes de tudo, e que o "positivo" se torne negativo. Judeu, árabe, branco, muçulmano, tutsi, hutu, rico, maçon, atleticano, petista, sem-terra, gaúcho. A partir daí, quantidade de "fenômenos extremamente interessantes" que se observa é inumerável, e vão do preconceito ao genocídio, passando por diversas formas de segregação e toda exploração comercial que se pode fazer delas - roupas de marca, comida kosher, adesivos no carro...

Isso tudo leva a outra observação que se pode fazer sobre a vida em sociedade: a notável perda de senso de causa e conseqüência na medida em que as relações se complexificam. As relações na natureza são extremamente simples: um animal mata outro porque sua carne tem bom sabor, e assim se vive. Toda a organização da natureza se baseia em pequenos fatos incontestáveis que foram, pouco a pouco, se sobrepondo e se relacionando. A evolução natural selecionou atos "positivos" para o convívio sustentável, eliminando os demais atos e indivíduos. Mas a nossa civilização mudou, em poucos milênios, as próprias condições de existência do planeta, tamanho o "avanço" que fizemos até aqui - a ponto de um indivíduo não ter plena consciência das conseqüências de seus mais simples atos.

Me parece estar aí a origem da velha afirmação de que a humanidade é coletivamente burra. Um sujeito acende um baseado e é assaltado com uma arma do tráfico. Tranca o cruzamento, indignado com a lentidão do trânsito. Gasta 900 reais numa camisa que custou 10, e não agüenta essa quantidade de pedinte na rua. Vota no candidato "jovem e dinâmico", diz que político não presta, paga uma fortuna em impostos, sonega outra fortuna, e acha uma beleza a nova obra que custou o dobro do previsto...

Dá pra continuar a noite toda nisso.